Inovação Jurídica e o Estereótipo da Idade

Quando pensamos em inovação na empresas, uma crença ainda muito comum é de que as iniciativas mais tecnológicas e disruptivas são sempre promovidas por profissionais mais jovens. É até compreensível que algumas pessoas pensem desta forma, especialmente quando  observamos à nossa volta todos os dias um número cada vez maior (e mais assustador, há quem diga) de crianças que aprendem a usar tablets e celulares muito antes de aprenderem a ler e escrever.

Mas a solução para aumentar a inovação nas empresas, então, está na contratação de profissionais mais jovens? A (talvez) maior aptidão e familiaridade com novas tecnologias se reflete automaticamente no comportamento da organização? Tratando de inovação e de empresas de forma ampla, parece óbvio que a resposta para ambas as questões é não. Mas e quando falamos de inovação na área jurídica?

O estereótipo de que a propensão a inovar e buscar novas tecnologias está tatuada na pele dos mais novos, ganha ainda mais força quando olhamos para um setor em que o tradicionalismo e a aversão a riscos parecem estar documentadas em papel, com firma reconhecida e registradas em cartório.

Mas ao que tudo indica, esta percepção também não representa a realidade no mundo dos advogados. É o que aponta uma recente pesquisa realizada pela Association of Corporate Counsel (ACC), que contou com a participação de mais de 1000 advogados corporativos em posições de liderança em mais de 47 países, incluindo o Brasil.

Segundo a pesquisa, a diferença de idade entre os líderes de departamentos jurídicos não apresentou reflexos substanciais na adoção de novas tecnologias para melhora da eficiência. Enquanto 56% dos millenials afirmaram que pretendem adotar novas tecnologias em seus departamentos nos próximos 12 meses, 48% dos baby boomers responderam da mesma forma.

Por outro lado, outro apontamento relevante, e que de certa forma contribui para o estereótipo que ainda recai sobre o segmento jurídico, é que apenas 42% de todos aqueles que responderam à pesquisa pretendem investir em novas tecnologias, com a ressalva de que outros 10% afirmaram que não planejam este investimento uma vez que já o fizeram recentemente.

Neste mesmo sentido, e corroborando com a ideia de que um pensamento tradicional ou inovador não depende da idade, os advogados corporativos apontaram como um dos principais desafios à transformação digital o fato de que “advogados, mesmo os mais jovens e inovadores, gostam muito de papéis e de formas tradicionais de prestar serviços legais”.

Mas se a idade parece não influenciar no comportamento inovador e tecnológico dos departamentos jurídicos, esta propensão se mostra mais intimamente ligada à cultura organizacional, atingindo o departamento jurídico de maneira reflexa. Assim, é mais fácil encontrarmos um jurídico inovador e tecnológico em grandes empresas e naquelas que atuam diretamente na área da tecnologia do que nas demais.

Será que já não está na hora do departamento jurídico assumir um papel de maior protagonismo nesta transformação digital?

Rafael Simião