Pandemia Digital

Diante de todas as incertezas que a pandemia do COVID-19 tem causado nas empresas e negócios de todo o mundo, uma, em especial, tem chacoalhado os advogados em nosso país. E não deveria. Não, não estamos falando da suspensão de prazos processuais. A grande preocupação que tem tirado o sono de muitos é: Será que estou preparado para administrar meu escritório remotamente?
Que podemos trabalhar à distância, ninguém tem dúvidas (ou pelo menos não deveria ter). Agora, será que estamos realmente preparados para tal? Preparados não apenas do ponto de vista de estrutura (notebooks, softwares, suporte de TI, segurança de rede, etc.), mas também, e principalmente, do ponto de vista comportamental.
A correria dos últimos dias pode ter resolvido a primeira parte deste problema, e agora, conforme se acompanha pelas mídias sociais, a grande maioria dos escritórios de advocacia está funcionando em regime de Home Office. No entanto, o restante e, talvez, maior desafio, esteja em conseguir construir a cultura do Home Office entre os colaboradores sem atrapalhar o andamento do negócio e, ainda por cima, à distância. Isto somente aumenta a responsabilidade neste tempo em que contato físico já não é mais opção e a transformação digital, que antes era meta, passou automaticamente à categoria de necessidade vital.
Enquanto muitos negócios investiram tempo para desenvolver uma maior proximidade e empatia com os clientes em uma realidade já tecnológica, o mundo jurídico preferiu focar em estreitar o contato humano físico, acreditando que este é o único contato humano possível ou, pelo menos, efetivo.
Nas nossas vidas pessoais vivemos um mundo cada vez mais Smart (SmartPhones, SmartWatches, SmartTVs…), mas nos escritórios e empresas o departamento jurídico continua relutando para aceitar essas transformações. A negação da tecnologia muitas vezes é justificada em razão das deficiências que ela apresenta ou dos problemas que ainda não resolve. Mas ao invés de investirmos tempo para ajudar a superar estas questões e melhorar a tecnologia, nos distanciamos ainda mais, “perdendo” o compasso da evolução tecnológica para depois termos que nos adequar “na marra”, quando já não temos outra saída.
A reunião presencial com a equipe é sempre é a melhor opção? O valor transmitido ao cliente realmente é maior quando o atendemos em nosso escritório? Ou seria tudo isso mais um pouco do tradicionalismo que faz muitos advogados não saírem de casa sem seu terno e gravata, acreditando que assim estão resguardando sua imagem e respeito profissional? Estes são questionamentos que nem sempre fazemos em nosso dia a dia, mas que neste momento inevitavelmente virão à tona.
O fato é que vamos enxergar, de uma vez por todas, que um dos principais objetivos da tecnologia é aproximar e possibilitar conexões que muitas vezes não são possíveis sem seu auxílio. Sem o contato humano físico, a tecnologia é o único elo que nos conecta, e quando começarmos a usá-la para criar mais empatia, aí sim sairemos desta crise mais fortes e mudados, com a esperança de que o futuro seja mais promissor.

Rafael Simião