Covid-19: O cisne negro e as startups

A pandemia causada pelo coronavírus (COVID-19) já mostrou que vai multo além de uma mera questão de saúde pública, provocando incertezas e disseminando previsões catastróficas para a economia não só brasileira como também em âmbito global. E se este novo cenário tem provocado drásticas mudanças na forma de atuação e na organização das empresas mais tradicionais, para as startups isso não deve ser diferente.

Como acontece naturalmente em cenários de grandes mudanças, surgem também grandes oportunidades de desenvolvimento de soluções para os novos desafios que se apresentam. E em uma situação como esta que estamos vivendo, na qual a tecnologia se torna um meio indispensável para lidar com a necessidade vital de isolamento social, as startups, que tem a tecnologia e a inovação em seu DNA, estão um passo à frente das empresas mais tradicionais. Mas não é sobre essas oportunidades que queremos falar aqui, neste momento (aliás, recentemente publicamos no nosso site um artigo que trata justamente deste assunto – vale a pena conferir). Nosso objetivo aqui é  refletir sobre as dificuldades e desafios que estão por vir.

Transferir os colaboradores da empresa para o sistema home office é uma medida muito fácil para a grande maioria das startups, ainda que a necessidade de mudar o modelo de gestão à distância desta equipe possa estar tirando o sono de alguns CEOs. O uso de ferramentas de videoconferência (Hangout, Zoom, Whereby, Skype, etc.), que para muitas pessoas e empresas tradicionais tem demandado um novo e difícil aprendizado, já é algo natural no mundo das startups. Mas os desafios que estão por vir são muito maiores do que estes. Sem a intenção de fazer um exercício de “futurologia”, nem tampouco prescrever a “receita do sucesso”, o que queremos é propor uma reflexão sobre o que as startups podem esperar, nos próximos tempos, e apontar alguns pontos de atenção essenciais para que essa crise seja superada.

O primeiro e mais importante recado foi dado já no início do mês de Março por, nada mais nada menos, do que a Sequoia Capital, uma das maiores empresas de capital de risco de todo o mundo. O fundo que ajudou a erguer o Vale do Silício, tendo investido em mais de 250 empresas desde sua fundação, na década de 70, (dentre elas as maiores empresas de tecnologia do mundo – Apple, Google, Oracle, PayPal e MUITAS outras, e inclusive a NuBank, aqui no Brasil), deixou clara sua mensagem: reavaliem todas as estratégias e suposições sobre seu negócio.

Em uma carta endereçada aos fundadores e CEOs das suas investidas, a Sequoia chama o coronavírus de “Cisne Negro de 2020”, fazendo uma alusão à teoria criada pelo matemático e filósofo Nassim Taleb, que faz referência a um evento “fora da curva”, extremamente raro e totalmente inesperado, que provoca impactos significativos e em larga escala. A carta, aliás, lembra outro comunicado (intitulado “R.I.P Good Times” – Descansem em Paz, Bons Tempos) também enviado pela Sequoia à sua rede em 2008, em meio à Crise Econômica Global que provocou o colapso de diversas empresas em todo o mundo.

Mas voltando ao alerta feito pela Sequoia, quando se fala em reavaliar toda a estratégia e os pressupostos sobre os quais se funda o negócio, alguns aspectos merecem especial atenção em razão das circunstâncias que envolvem  a atual crise.

O primeiro destaque diz respeito à Captação de Investimentos. Muitas startups, hoje, tem toda a sua estratégia de crescimento baseada em sucessivos rounds de captação de investimentos, seja uma captação direta, ou mesmo por meio de programas de aceleração ou inovação aberta promovidos por empresas. Esta dinâmica certamente irá mudar. Conforme já aconteceu anteriormente (em 2000, por exemplo, após o “estouro da Bolha da Internet”, ou em 2009, após a Crise Econômica Global)), as oportunidades de financiamento privado, investimentos a fundo perdido e captação de capital de risco, que estavam tão em alta nos últimos tempos, devem ser significativamente reduzidas. Assim, é imprescindível que as startups repensem o seu planejamento de crescimento, talvez adiantando uma tendência que já vinha ganhando força recentemente, de maior foco em lucratividade ao invés de crescimento a um custo alto.

Nesta mesma linha, outras questões que devem ser revistas, e que estão intrinsecamente ligadas entre si são: Dinheiro Disponível e Burn Rate. O planejamento financeiro (especialmente dos gastos) feito com base no dinheiro atualmente disponível e nas expectativas de entrada de recursos nos próximos períodos certamente vai ser afetado. É lógico que algumas startups que fornecem soluções específicas para enfrentamento da crise devem ter um impacto financeiro positivo. No entanto, para os demais (grande maioria), o cenário não é animador. A Projeção de Vendas deve igualmente ser revista, uma vez que é esperável que os consumidores revejam suas prioridades de gastos e investimentos (impactando tanto negócios B2B quanto B2C). Em função disto, um planejamento de custos mais rigoroso e conservador é medida essencial para quem quer sobreviver a este período de dificuldades.

E é natural que como reflexo deste novo planejamento financeiro outros pontos delicados da operação das startups também seja afetado. Um bom exemplo são as verbas destinadas a investimento em marketing, uma vez que diante das incertezas econômicas e na captação de investimentos, os custos de aquisição de clientes e seu valor ao longo do tempo serão afetados, e, portanto, novas expectativas de retorno do investimento em marketing também deverão ser levadas em consideração ao analisar sua viabilidade das ações. Outro aspecto impactado também será o tamanho da equipe e, aqui, as decisões e estratégias devem ser ponderadas com ainda mais responsabilidade, uma vez que a crise não afeta apenas a empresa, mas o mercado e a população como um todo, e os colaboradores da startup não ficam fora desta dinâmica. O momento desafiador para todos também é uma ótima oportunidade para melhorar o engajamento, senso de pertencimento e o aumento da produtividade.

Ainda não temos plena noção de quanto tempo essa crise de saúde pública irá durar (e menos ainda os reflexos econômicos decorrentes dela), portanto, é muito importante que as startups refaçam seu planejamento dentro de um cenário de dificuldades a longo prazo.

Mas nossa intenção ao trazer esses assuntos à discussão não é assumirmos a postura de “mensageiros do caos”, pintando um cenário sombrio e assustador, mas sim fazermos um alerta. Alerta para que as startups que pretendem continuar resolvendo os problemas do mundo com suas ideias inovadoras se preparem bem e sobrevivam a esse momento de dificuldade, que não é o primeiro e certamente não será o último. E com isso em mente, encerramos destacando um pensamento trazido também pela Sequoia, citando Darwin: “Aqueles que sobrevivem não são os mais fortes ou mais inteligentes, mas os mais adaptáveis às mudanças”. Vamos nos adaptar.

Rafael Simião