Análise de Dados: Os bois, a carroça e os primeiros passos

Usar uma analogia tão antiga em um ambiente que promove a inovação parece um contrassenso, mas tão retrógrada quanto este ditado popular é a visão que muitos profissionais do Direito ainda têm sobre o tema análise de dados. E muito disso se dá por pura falta de conhecimento técnico do assunto.

Não é difícil ouvirmos em nosso dia a dia discursos sobre Jurimetria, análise preditiva, Big Data, ou inteligência artificial aplicada ao Direito, mas pouco se fala sobre algo fundamental para o sucesso de qualquer uma dessas “novas tecnologias”: como está sendo feita a coleta e o mapeamento de dados dentro do seu escritório ou departamento jurídico?

As discussões sobre os possíveis benefícios que podemos ter com a utilização de ferramentas de análise de dados são empolgantes, especialmente porque a tecnologia para tal já existe, e é plenamente executável. O grande problema, que posteriormente se converte em motivo de frustrações e até mesmo na perda de interesse pelas novas tecnologias, é que nem sempre ficam claros o tempo e os passos necessários para chegar ao resultado almejado. E é aí que a carroça é colocada na frente dos bois.

O próprio discurso de venda destas ferramentas contribui para essa distorção. Satisfação é igual a Realidade menos Expectativa. Ao criar-se uma expectativa muito descolada da realidade, a frustração é quase certa. E grande maioria dos escritórios e departamentos jurídicos ainda é bastante imatura no que diz respeito ao mapeamento de dados (mais por uma questão cultural do que de infraestrutura em si).

Enquanto as outras áreas das empresas investiram durante anos na coleta e mapeamento de dados, e agora estão começando a colher os frutos desta mudança cultural, o Direito ainda não comemorou nem 15 anos da instauração do processo eletrônico. A própria adoção de softwares de gerenciamento de processos não é algo tão antigo. É natural que os resultados das novas tecnologias acompanhem este processo de amadurecimento cultural.

Mas fato é que não existe análise se não “existem” dados. E colocamos entre aspas propositalmente, pois também não há dúvidas de que os dados existem (e são muitos), mas não basta existir se você não o armazena e individualiza para que depois seja possível analisar. Nessa era da informação, os dados são a matéria-prima de maior valor. E o primeiro passo para essa mudança cultural é perceber a importância do mapeamento e coleta de dados.

Logo em seguida deve vir o entendimento de que os resultados mais substanciais só aparecerão com o tempo, mesmo porque as análises mais “empolgantes” e consistentes demandam uma base maior de informações para serem feitas. E para fechar esses “primeiros passos”, é fundamental a aproximação do diálogo entre os profissionais do direito e da tecnologia. Só assim aqueles que manipulam estes dados vão poder enxergar a importância daquilo que deve ser coletado, e do outro lado os profissionais do Direito vão estar mais conscientes das possibilidades que as novas tecnologias podem lhes oferecer.

Rafael Simião